A palavra multiculturalismo tem geralmente uma
conotação positiva: refere-se à
coexistência enriquecedora de diversos pontos de vista,
interpretações, visões, atitudes, provenientes de
diferentes bagagens culturais. O termo serve de etiqueta para uma
posição intelectual aberta e flexível, baseada no
respeito desta diversidade e na rejeição de todo
preconceito ou hierarquia. As várias óticas devem ser
consideradas em pé de igualdade; afirmações ou
construções teóricas só podem ser julgadas
em relação ao ponto de vista cultural. Não
tem sentido falar de contradição, só de
diferença. Não tem sentido falar de verdade tout
court, só de verdade para um determinado grupo
cultural. O multiculturalismo apregoa uma visão
caleidoscópica da vida e da fertilidade do espírito
humano, na qual cada indivíduo transcende o marco estreito da
sua própria formação cultural e é capaz de
ver, sentir e interpretar por meio de outras apreciações
culturais. O modelo humano resultante é tolerante,
compreensivo, amplo, sensível e fundamentalmente rico: a
capacidade interpretativa, de observação e até
emotiva, se multiplica. O multiculturalismo que venho comentar aqui não
tem, porém, conotações positivas. Por falta de
termo alternativo estabelecido, estou usando o mesmo vocábulo
para assinalar a situação oposta à do
parágrafo anterior: a tendência ao fechamento ou bloqueio
cultural, a falta de vontade, ou capacidade, para transcender os
limites de sistemas construídos, ignorando o que acontece
além de seus muros, a potencial criação de um
modelo humano incompleto, limitado, estreito e fundamentalmente pobre.
E, tristemente, este multiculturalismo pernicioso está
acontecendo nos mais altos círculos intelectuais, incluindo,
muito especialmente, o meio acadêmico. Estou me referindo ao
divórcio entre certos setores das ciências humanas e as
ciências naturais. O fenômeno não é recente
nem desconhecido; seu diagnóstico oficial data, pelo menos, das
palestras de C. P. Snow em 1956 [1]. Pessoalmente, dei-me conta da
persistência, gravidade e acentuação do problema no
encontro Visões de Ciência realizado na USP, em 27
e 28 de abril de 1998. As "duas culturas" de Snow O trabalho de C. P. Snow
analisou os primeiros sintomas deste multiculturalismo. O Prof. Snow
era, em suas palavras, "Por formação, ... um
cientista; por vocação, um escritor". Esteve
envolvido na pesquisa científica em Cambridge e teve "o
privilégio de assistir da primeira filq a um dos momentos mais
extraordinariamente criativos de toda a física". Isto
é, o desenvolvimento da mecânica quântica e o
começo da física de partículas moderna. Em
paralelo tentou "dar forma aos livros que queria escrever, o que,
no devido tempo me levou ao convívio com escritores."
Durante essa alternância, ele percebeu a existência de
"duas culturas", representadas por esses "dois grupos,
comparáveis em inteligência, idênticos em
raça, não muito distantes em origem social, que recebiam
quase os mesmos salários, mas que haviam cessado quase
totalmente de se comunicar entre si e que, na esfera intelectual, moral
e psicológica, tinham tão pouca coisa em comum". A
descrição que Snow faz dos dois grupos é ainda
vigente: "Num pólo os literatos; no outro os cientistas e,
como mais representativos, os físicos. Entre os dois, um abismo
de incompreensão mútua --- algumas vezes (particularmente
entre os jovens) hostilidade e aversão... Cada um tem uma imagem
curiosamente distorcida do outro. [...] Os não-cientistas
tendem a achar que os cientistas são impetuosos e orgulhosos.
[...] [e] têm a impressão arraigada de que
superficialmente os cientistas são otimistas, inconscientes da
condição humana. Por outro lado, os cientistas acreditam
que os literatos são totalmente desprovidos de previsão,
[...], num sentido profundo antiintelectuais..." Se bem Snow fale de
"físicos", fica claro que ele está se
referindo às ciências naturais em geral. De fato, ele
faz notar a existência de uma "cultura científica
[que] é realmente uma cultura, não somente em sentido
intelectual, mas também em sentido antropológico. Isto
é, seus membros não precisam sempre compreender-se
completamente, e com certeza freqüentemente não o fazem; os
biólogos geralmente têm uma idéia bastante obscura
da física contemporânea; mas existem atitudes comuns,
abordagens e postulados comuns. Isto se manifesta surpreendentemente
de maneira extensa e profunda. Passa por outros padrões mentais
como a religião ou a política ou a classe social."
Por outro lado, é claro que muitos setores importantes das
ciências humanas compartilham hoje a atitude com respeito
às ciências naturais que Snow atribui aos literatos. De
fato, o estudo do discurso, quase como evento literário,
tem se convertido em alvo central de muitas pesquisas nas humanidades
(este é, precisamente, um desenvolvimento associado ao
pensamento pós-modernista). É lícito,
então, interpretar a analise de Snow como revelando uma
antinomia Ciências Naturais vs. certos setores das Ciências
Humanas. Snow
particularizou várias manifestações da
separação entre essas culturas. Primeiro, a mútua
ignorância dos aspectos mais básicos de cada
edifício cultural. Os cientistas das ciências naturais
têm pouco tempo, e vontade, para ler fora da sua especialidade:
"dos livros que para a maioria dos literatos são como
pão e manteiga --- romances, história, poesia, teatro---
[não lêem] quase absolutamente nada." Os não
cientistas [naturais] "Sorriem com um desdém compassivo
diante da informação sobre cientistas que nunca leram uma
obra importante da literatura inglesa. [...] tachando-os de
especialistas ignorantes. No entanto, sua própria
ignorância e sua própria especialização
são tão surpreendentes quanto as deles. Muitas vezes
estive presente em reuniões de pessoas que, pelos padrões
de cultura tradicional, são tidas por altamente cultas, e que,
com considerável satisfação expressaram a sua
incredulidade quanto à falta de instrução dos
cientistas. Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei quantas deles
poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta
foi fria: também foi negativa. No entanto, eu estava
perguntando algo que eqüivaleria em termos científicos a:
Você já leu uma obra de Shakespeare?" A segunda
manifestação é a divergente atitude com respeito
à "cultura tradicional". Para os cientistas naturais,
"toda a literatura da cultura tradicional não lhes parece
relevante para [seus] interesses." Os que não são
cientistas naturais "gostam de afirmar que a cultura tradicional
é toda a `cultura’". Uma terceira
manifestação é uma certa assimetria sobre as
conseqüências das "duas culturas". Os não
cientistas "não fazem a menor idéia desse
edifício [científico]. E, mesmo que quisessem fazer,
não o poderiam. É como se, de um lado a outro de uma
imensa gama de experiência intelectual, um grupo inteiro
estivesse surdo. Com a diferença que essa surdez não
é inata, mas é causada pela educação, ou,
melhor, pela ausência de educação. [...] Deste
modo, [...] a maioria dos homens mais inteligentes do mundo ocidental
tem tanto conhecimento sobre ele [o edifício da física]
quanto seus ancestrais neolíticos." Porém, os
não cientistas "estão ... vaidosos disso". Tudo isso é
provavelmente história conhecida por muitos leitores, aos quais
peço desculpas, mas achei conveniente esta pequena
introdução para poder explicar em que sentido o encontro
Visões de Ciência mostrou para mim que o
cenário apresentado por Snow tem mudado consideravelmente ....
para pior. O
encontro Visões de Ciência O título completo do
encontro foi Visões de Ciência. Encontros com Sokal e
Bricmont e foi organizado aproveitando a visita à USP dos
físico-matemáticos Alan D. Sokal (New York University,
Estados Unidos) e Jean Bricmont (Université Catholique de
Louvain, Bélgica). Eles haviam publicado na França o
livro Impostures Intellectuelles [2], no qual expõem uma
série de erros e abusos da linguagem científica cometidos
por intelectuais geralmente associados ao pós-modernismo. O
primeiro foi também autor de uma célebre paródia
com a qual induziu uma revista americana de estudos culturais a
publicar como artigo sério uma compilação de
bobagens escritas usando expressões-chave de intelectuais
pós-modernos e citando profusamente os gurus do pedaço.
O livro tem dois objetivos diferentes. Por um lado, mostrar que esses
erros não são involuntários nem acidentais, mas
que constituem verdadeiras imposturas: intentos de impressionar uma
audiência ingênua com uma erudição só
aparente, jogos de linguagem para sugerir bases científicas
inexistentes, ou obscuridades deliberadas querendo passar por
profundidades mediante o uso livre de termos científicos fora de
contexto. Por outro lado, o livro denuncia a influência
crescente de posturas relativistas em diversas áreas das
humanidades. Essas posturas, em casos extremos, negam a
existência de um mundo físico objetivo, reduzem as
verdades científicas a meras construções sociais,
e consideram as teorias científicas uma forma de narrativa
comparável a lendas e mitos. O livro detonou uma polêmica
muito intensa [3]. O
tema, embora espinhoso, é de inegável importância e
oferecia uma oportunidade ótima para juntar cientistas das
áreas naturais e humanas num debate "multicultural".
É claro que tal debate corria o risco de virar um conflito, mas,
quiçá por isso, tinha uma grande possibilidade de atrair
representantes ilustres de ambos os grupos no Brasil, e produzir um
intercâmbio de idéias promissor e necessário. A
vinda de Sokal e Bricmont completava o caráter único da
oportunidade. O encontro foi organizado meticulosamente por uma
comissão formada com pesquisadores de vários institutos e
departamentos da USP (Instituto de Estudos Avançados, Instituto
de Matemática e Estatística, e Departamentos de
Filosofia, Antropologia e Ciências Políticas da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Planejaram-se quatro
sessões em que palestrantes selecionados discutiriam os diversos
assuntos levantados pelo livro de Sokal e Bricmont e a paródia
do primeiro: o conteúdo do livro, o relativismo cultural
introduzido pela antropologia, o relativismo cognitivo, a metodologia
das ciências naturais e das ciências humanas, o ensino
científico, a relação entre poder, política
e ciências, e o rol das esquerdas. Pessoalmente, fui a esse
encontro com uma grande expectativa que, em parte, não foi
correspondida. O que
observei convenceu-me de que o Brasil não é uma
exceção: existem setores para os quais o fosso entre as
duas culturas tem adquirido uma nova dimensão. Já
não é só ignorância, soberba, falta de
apreciação; é muito mais: A escolha do foco, as
ferramentas lógicas e retóricas, a estrutura do fio
argumentativo é tão divergente dos das ciências
naturais que em vez de um diálogo entre culturas (intelectuais),
às vezes parecia só um intercâmbio de sons entre
duas espécies. Mais que uma diferença na bagagem de
conhecimentos ou na seleção dos métodos e objetos
de estudo, apareceram diferenças irreconciliáveis no uso
da linguagem, o valor dado às afirmações, e
até os mecanismos mentais. Segue uma lista comentada dos
aspectos a meu entender mais chocantes dessas diferenças. Vou
citar direitamente de uma transcrição preliminar das
fitas das sessões (que espero sejam finalmente transcritas em
forma de texto para cada um analisar e concluir por si
próprio). A
escolha do foco. O livro de Sokal e Bricmont, e a paródia
do primeiro, levantam questões muito concretas que os
próprios autores enfatizaram nas suas palestras: Existem
imposturas nas humanidades que não são denunciadas nem
condenadas; muito pelo contrário, os setores envolvidos
conquistam proeminência e popularidade em certos círculos
acadêmicos e da mídia. Esta é uma
situação ruim e é preciso reagir em defessa do
pensamento e das atitudes intelectuais honestas. Por outro lado,
importantes pensadores humanistas mal interpretam as teorias
científicas ou postulam teorias em colisão direita com
fatos experimentalmente verificados. É necessário um
diálogo esclarecedor que elimine esses mal-entendidos e acabe
com sua perpetuação em sucessivas gerações
de discípulos. O desenho do encontro apontava a análise
específica dessas questões, mas uma grande
proporção dos palestrantes das disciplinas humanistas
mudaram o foco e deram mais importância às
intenções dos autores e à forma como
apresentam suas afirmações do que ao valor destas. Por
exemplo, parte da palestra de um filósofo foi dedicada a
discutir "truques retóricos" no livro que implicam um
juízo mais geral sobre os autores analisados, e sobre certas
correntes de pensamento, do que aquilo que está explicitamente
escrito. Um antropólogo fala de "patrulhamento
lingüístico", outro da "retórica da
não retórica". Um antropólogo e um
lógico salientaram que dos dois temas discutido no livro
(imposturas e relativismo cognitivo) só um aparece no
título. Uma antropóloga criticou uma "atitude
moralista" que "não nos ajuda a compreender" e
"abdica da virtude mais essencial ao trabalho intelectual, que
para mim é a capacidade de compreender, que deve ser anterior ao
ato de julgar". Outra manifestação dessa mudança
de foco ocorreu pelas defesas e ataques corporativos (nada originais).
Um sociólogo se queixa de que "as ciências sociais
não são exatamente o que vocês [Bricmont e Sokal]
estão pintando", "vocês [só] conhecem bem
a cultura intelectual dos veículos de quinta categoria da
esquerda americana". Como complemento, um antropólogo tenta
interpretar o livro como uma reação à perda de
poder dos físicos: "O problema da física hoje parece
ser que ela não conseguiu `deliver’ muitas das promessas que
foram feitas no pós guerra."; e se pergunta se "essa
crítica ao uso da física e da matemática em
ciências sociais não tem um certo toque de
nostalgia". Outro sociólogo fala que se ataca a sociologia
da ciência porque "ela tira a ciência do altar".
As respostas de Sokal
ilustram claramente o contraste: "não estamos falando da
obra geral, [só] dos textos que citamos sobre a suposta
aplicação da topologia às doenças mentais,
etc., etc. Se alguém puder nos explicar qual é a verdade
profunda contida nesses textos que criticamos, ficaremos muito
agradecidos; se puder nos convencer, estaremos dispostos a fazer
alterações nas versões portuguesa e brasileira do
livro, por exemplo. Mas até o momento ninguém se
incomodou [...] para explicar o que queriam dizer". Em outra
discussão, ele afirma que: "tem-se falado muitas coisas
válidas contra idéias que não são as nossas
[...] e coisas equivocadas a propósito das idéias que
são as nossas. [...] não pretendemos fazer uma
crítica global das ciências sociais não é
[...] corporativismo, [não é] que as ciências
naturais querem destruir as ciências sociais, [...] nos
criticamos certos autores e certo setor dos "culture
studies"." É claro que as posições
são ortogonais. Para um cientista natural, o que importa
é o que se disse, mais que como. Uma teses
é julgada pela consistência das provas ou
evidências experimentais propostas. E só pode ser
rebatida nesses termos. Se a tese é incorreta, esse fato toma
proeminência sobre toda "compreensão" das
razões que levaram ao erro. Ademais, o que vale é o que
está escrito ou dito, em particular com respeito a objetivos e
motivações. O livro não ataca nem acusa de nada
as ciências sociais nem qualquer disciplina em geral, só
analisa pensadores individuais e correntes de pensamento relativista. O
livro não propõe a física ou a matemática
como modelo ou paradigma, nem pretende defendê-las de
(imaginários) inimigos ou concorrentes. Esses fatos deveriam
ser suficientes. Para um cientista (natural) o enfoque quase
psicanalítico de alguns humanistas no encontro, mais afim com a
crítica literária (os "literatos" de Snow),
aparece como algo completamente fora de lugar, quase uma postura
evasiva dos pontos explicitamente levantados. Para os humanistas, a
postura científica parece ingênua porque o estilo é
uma parte integral da obra e os motivos são de importância
comparável aos fatos. Na verdade, as razões dessa ortogonalidade foram
claramente explicadas no encontro. Uma antropóloga notou,
seguindo Levi Strauss, "a impossibilidade de nas ciências
humanas se estabelecer uma diferença radical entre o sujeito que
conhece e o objeto a ser conhecido [porque] esses objetos a serem
conhecidos são também seres de conhecimento, seres que
conhecem", e se bem que "o homem de ciência pode
afastar, como elemento perturbador do ato de conhecer, as
opiniões, os interesses, os desejos e as
significações, nas ciências humanas esses
resíduos são a matéria mesma do pensamento".
Por outro lado, um psicólogo frisou que "uma das
dificuldades epistemológicas das ciências humanas é
que os enunciados são coadjuvantes ou produzem mudanças
no próprio fenômeno que se trata". Nessa linha, um
cientista político sintetizou que "é um bocado
diferente estar numa área em que as suas condições
de observação interferem em seus objetos, e outra estar
numa área em que suas condições de
observação ajudam a produzir o próprio
objeto". Surpreende o fato de que essa consciência
tão clara das diferenças não contribuiu para
encontrar um lugar comum que facilitasse o debate. Cientistas
humanistas investiram muito tempo em criticar o estilo confrontacional
do livro, as motivações políticas, o
espírito classista dos cientistas naturais, até os crimes
da ciência (natural), e quase nada nas imposturas mesmas.
Bricmont e Sokal continuaram em vão pedindo que por favor se
trate dos pontos no livro e não de extrapolações
imaginárias. Com contadas exceções, seus pedidos
não foram satisfeitos nem no encontro nem em polêmicas
subseqüentes [4]. O valor das afirmações. Um assunto
recorrente foi a diferença, repetida até o cansaço
por Sokal, entre conjetura e afirmação.
Ele e Bricmont afirmavam que muitos autores pós-modernos
cometeram imposturas no uso de termos científicos e
conjeturavam que isso podia indicar imposturas semelhantes no
resto de sua obra. Sokal e Bricmont apresentam, em seu livro, provas
para sua afirmação e só enunciam a conjetura.
Num debate científico isso seria o fim do assunto: uma
afirmação se prova ou rebate; uma conjetura fica
flutuando à espera de uma análise ulterior. Porém,
para muitos palestrantes, a conjetura foi tomada como o ponto central,
dissimulado, do livro, e nenhuma declaração em
contrário dos autores, feitas no encontro ou citadas do livro,
foi capaz de alterar esta posição. O ponto de vista
não poderia ser mais díspar: para o cientista a
afirmação tem mais valor porque está solidamente
provada; para certos humanistas a conjetura é até mais
reveladora, quiçá porque tem embutida uma
expressão de desejos. De um lado, isso é outra
manifestação da diferença, apontada acima, entre
uma ciência que pode e outra que não pode separar o
sujeito que conhece do objeto conhecido. Do outro lado, mostra o pouco
respeito por parte de alguns humanistas ao sentido preciso de certas
palavras. O uso da
linguagem. Nas ciências naturais os diferentes termos
têm significados muito rígidos. De fato, os artigos
científicos habitualmente começam com as
definições precisas dos termos e símbolos usados.
Situação oposta ocorre na literatura, em que se joga com
possíveis ambigüidades dos vocábulos e até
com uma variedade de associações entre diferentes
significados possíveis. Em literatura, a vaguidade enriquece;
em ciências naturais é um pecado capital. Compreende-se,
então, o inevitável conflito com setores humanistas que
tomam posturas "literárias". Por exemplo, no encontro
um antropólogo contou que um tempo atrás enviaram uma
proposta ao Ministério da Educação e, quando foram
indagar a respeito do processo, a burocracia afirmou que o processo
não existia. "...então simultaneamente o nosso
dossiê existia e, do ponto de vista da burocracia, o processo
não existia". Sokal teve a cortesia de assinalar que em
realidade o palestrante estava simplesmente jogando com duas
definições de "existir", uma de eles --- o
processo existe porque foi escrito e enviado--- e outra da burocracia
---o processo não existe porque ainda não havia seguido a
trajetória necessária. Mas o antropólogo foi
explícito ao afirmar que "saltar de uma questão
cultural a uma questão de lógica é muito
empobrecedor, acho que é exatamente isso que um
antropólogo, por obrigação de ofício [...]
não [vai] fazer". O uso da (i)lógica. Nas ciências
naturais, todo argumento, teoria ou debate segue regras lógicas
muito estritas. Falácias e jogos de linguagem não
têm lugar exceto em piadas ou brincadeiras. A capacidade de
raciocinar logicamente, e de detectar imediatamente
inconsistências, tautologias e afirmações vazias
é quase a primeira coisa que um estudante das ciências
naturais adquire. Sem ela não chega longe na sua carreira. O
treino é marcante. Uma mente habituada à lógica
é impaciente e intolerante perante o ilógico em
discussões e argumentações. O problema não
é o ilógico na criação artística,
que é natural e até necessário, e quase parte da
definição de arte. O intolerável é a falta
de lógica em debates supostamente intelectuais, nos quais
está em discussão a validade de idéias ou teorias,
ou a escolha de cursos de ação. Porém,
vários palestrantes viram nessa lógica uma espécie
de "colonialismo" ou "imposição" das
ciências naturais sobre as humanas. O antropólogo que
pretendeu provar que, contrariamente ao que um cientista natural poda
afirmar, certa coisa pode existir e não existir ao mesmo tempo,
acrescentou que "do ponto de vista de um antropólogo
é muito empobrecedor [...] reduzir essa questão a um puro
sofisma [...], não nos acrescenta muita coisa, parece-nos mais
interessante, efetivamente, aceitar num certo sentido um relativismo,
ou seja, do ponto de vista de uma `cultura’ dos cientistas envolvidos,
o dossiê existia e do ponto de vista da `cultura’ da burocracia o
dossiê não existia." Um sociólogo declarou
que "onde a gente tem mais dificuldade de fazer o diálogo
com vocês [cientistas naturais] [...] é no sentido de que
vocês estão querendo definir regras universais da
lógica, da busca de documentação, dos
critérios para ler a documentação, de interpretar
a documentação". Outro sociólogo protestou
que a ciência (natural) "vem acompanhada de uma coisa que
é chamada ideologia científica, que é a
pretensão de que essa ciência opera com uma
demarcação absoluta do que é conhecimento, do que
é válido, do que não é válido, que
não tem muito a ver com o conteúdo de como é que a
atividade científica é feita, mas tem a ver com a
retórica que os cientistas usam para defender o seu campo de
atuação, seu trabalho, seu prestígio na
sociedade." Sokal
respondeu que "Não queremos impor uma metodologia nas
ciências humanas, pelo contrário [...], questionamos (no
epílogo do livro) a idéia de muitas pessoas em
ciências humanas que querem imitar as ciências naturais
[...], dizemos que em cada campo de investigação os
métodos devem se adequar aos fenômenos que se quer
estudar, e a única coisa que mantemos é que tem um certo
mínimo de racionalidade comum [...], por exemplo, que duas
afirmações claras, sem ambigüidades, mutuamente
contraditórias, não podem ser ambas verdadeiras."
Ficou claro que alguns setores humanistas não compartilham esse
tipo de "racionalidade comum", até que suas teorias
são edificadas de modo de evitar ou rejeitar esta
"racionalidade". Quiçá é esta a
ilustração mais clara da nova dimensão do fosso
entre as "duas culturas": atinge os próprios
mecanismos mentais. O
uso de juízos de valor. Essa é uma técnica
que se assemelha ao problema de mudança de foco mencionado
acima. Em vez de analisar as questões propostas, o debate
inteiro é minimizado porque é "muito pobre" ou
porque é brincadeira. Uma antropóloga construiu sua
palestra a partir da tese de que a paródia de Sokal (ela
não tinha lido o livro de Sokal e Bricmont) era algo feito
só para "se divertir". Na verdade eu vejo isto
também como um caso de mal uso da linguagem. Ela fala de uma
"farsa no sentido teatral do termo, isto é, uma peça
cômica de um ato só, um curto enredo e poucos atores, uma
ação irreverente e burlesca com elementos de
comédia". Bela mistura de elementos nem sempre
relacionados. Bom, para começar, uma paródia é
bem diferente de uma farsa no sentido de "peça cômica
de um ato só" ou "curto enredo" (basta pensar em
Don Quijote de la Mancha); é um trabalho muito
sério e sofisticado de expor uma situação, para
fazer uma crítica, com a contundência que dá o
ridículo. Os atores, a julgar pelo número de
citações ao final do artigo, foram muitos, e o enredo
não foi muito curto, considerando-se a polêmica e o livro
subseqüente. O "affaire" não foi feito para gerar
diversão, e de fato gerou pouca. Sokal trabalhou como um
ourives durante quase dois anos para preparar a sua paródia,
pesquisando referências, consultando colegas, e aprendendo a
mimetizar o estilo obscuro e vácuo das
"vítimas"; e mais de que risadas a paródia
gerou polêmicas ácidas, conferências, livros e
trabalhos de tese. Um cientista tende a não misturar
razões e valores. A sepultura de um debate sob juízos de
valor apressados é um recurso um tanto ingênuo e
inesperado nos círculos acadêmicos. A incompreensão do
método científico. É natural que um
antropólogo, treinado para ver as coisas sob diversas
óticas culturais, relativize os objetos de estudo da
antropologia. O mesmo pode ser dito de um sociólogo. Mas
se esperaria que a mesma atitude não fosse estendida às
ciências naturais. Infelizmente isso nem sempre ocorreu no
encontro. Ficou a impressão de que alguns humanistas esquecem
que as ciências naturais têm uma definição
"objetiva" de verdade: o resultado de experimentos. Uma
teoria é aceita só se não contradisse nenhum
experimento (que possa ser reproduzido por quem quiser). A teoria
não é aceita por moda ou porque a teoria anterior era
"muito empobrecedora", senão puramente com base na
verificação experimental. Em muitos casos existem
várias teorias diferentes que explicam os mesmos
fenômenos. Nesses casos, usam-se critérios adicionais,
tais como a simplicidade, o poder de predição, a
naturalidade, etc. Mas tudo isso, que foi claramente explicado no
encontro por um filósofo da ciência, submete-se ao
veredicto experimental: a teoria refutada por algum experimento
é abandonada, ou seu domínio de aplicabilidade é
restringido. Esse princípio aplica-se qualquer seja a
"beleza" da teoria ou da prosa usada para
apresentá-la, e mesmo que envolva uma perda epistêmica.
Quiça passe por aí a diferença entre
ciências "duras" e "moles". O experimento
é "duro". Ele define o que é a
"verdade". Seu resultado não depende do "ponto
de vista" nem de alguma característica física ou
cultural das pessoas que lêem os aparelhos. A
interpretação depende, é claro, do fator
humano e é ali que as regras da lógica jogam um papel.
Mas esses fatos
não são tão evidentes para alguns. Um
antropólogo apresentou dois exemplos para apoiar sua
afirmação de que o programa relativista foi bem-sucedido
e que agora sabemos que não existe demarcação
absoluta entre ciência e não-ciência. Primeiramente
ele se perguntou como é que se define um remédio que
funciona e um que não funciona. É um remédio que
é aceito pela Federal Drug Administration dos Estados Unidos, ou
um remédio que os índios brasileiros estão
acostumados a usar e que dá certo? É óbvio que o
palestrante nem pensa no fato crucial: um remédio que funciona
é aquele que mostra, mediante testes controlados e um tratamento
estatístico adequado, que faz uma diferença
notável comparando-se a não fazer nada. A
diferença está no experimento. Adiante, ele fala
de remédios contra a impotência e pergunta por que a
psicanálise não é também considerada como
tal. A resposta é a mesma: a psicanálise será
considerada na cura só depois de estudos estatísticos
detalhados, nos quais a colaboração dos psicanalistas
é essencial. Quiçá a incompreensão do
método experimental se deva a que, como comentou um membro da
audiência, "a absorção, a
captação desse conceito operacional requer, pelo menos,
que a pessoa transite, pessoalmente, pelas etapas do método
científico: [...] a etapa de observação, a etapa
da mensuração, a etapa dos testes cruciais, e até
mesmo pela parte mais irracional que é o lançamento de
hipóteses". A matemática é, num certo sentido,
especial, porque em geral suas conclusões só são
"testadas" com base em sua consistência lógica.
Mas às vezes os experimentos, no sentido do mundo físico,
são possíveis. Outro antropólogo fez uma
detalhada consideração de abstrações
relacionadas com o número Pi (=3,1416...), em particular, com o
fato de ter infinitas cifras decimais (os infinitos matemáticos
são quiçá os conceitos mais sofisticados e
difíceis de transmitir ao leigo, quem pode ver-se tentado a
escolher a via do ceticismo), e concluiu que "os números
têm uma variabilidade ontológica que acompanha e é
paralela a variações culturais, religiosas e talvez
até mesmo políticas. [...] então existe uma
pluralidade ontológica mesmo nesse campo aparentemente
tão definitivo e exato." Falta um ingrediente nesse
argumento: Pi foi descoberto já pelos antigos egípcios,
e quiçá antes, que observaram que se qualquer
pessoa toma qualquer círculo e divide o perímetro
pelo diâmetro, ela obtém sempre o mesmo
número. É um dos primeiros exemplos de experimento
reproduzível, e a observação está alem de
toda "pluralidade ontológica". A incompreensão, ou
esquecimento, das bases experimentais das ciências naturais
é, acho, um dos maiores obstáculos hoje ao diálogo
"entre culturas" (e uma das fontes principais de ironia entre
cientistas, engenheiros, médicos etc. em relação
aos humanistas). O
pós-encontro Lembro muito bem aquela última noite, quando
saía do Auditório de Geografia, sede do encontro,
cansado, frustrado, desapontado. A organização
cuidadosa, os palestrantes distinguidos, a própria
participação de Sokal e Bricmont não evitaram que
o encontro sofresse a mesma sorte que outros do mesmo estilo: o
intercâmbio de idéias frontal e enriquecedor não
dominou, as questões centrais não foram debatidas
abertamente; foi uma esgrima entre um enfoque baseado na lógica
estrita e um enfoque próximo à crítica
literária ou à psicanálise no qual a lógica
era até irrelevante. Sokal e Bricmont tiveram que suportar um
ataque sem grandeza, não relacionado às críticas e
propostas contidas no seu livro (a maioria dos palestrantes confessou
não tê-lo lido) senão ao que alguns imaginavam
estar por detrás do seu trabalho, ou no marco de um
enfrentamento entre disciplinas, coisa longe do espírito dos
autores (como eles enfatizaram várias vezes) e do encontro. A
este ataque, corporativo, dos humanistas, os cientistas responderam de
uma maneira lamentável e previsivel; simplesmente não
assistiram (exceto à última sessão, sobre temas
políticos, que foi sem dúvida a sessão mais
bem-sucedida). Posso imaginar, com base no que conheço de meus
colegas, o que passou pelas suas mentes: "Para que? Esses caras
não valem a pena, não têm nada a dizer, o que dizem
não tem sentido, é uma perda de tempo". As duas
culturas mostraram estar cada vez mais afastadas. Freqüentemente volto a
pensar sobre o evento Nos momentos otimistas, penso que se irá
encontrar, aos poucos, um nível comum de diálogo. Os
cientistas são bem conscientes das limitações de
sua empresa. As perguntas profundas, os mistérios essenciais,
escapam à rigidez dos seus métodos. E muitos são
conscientes da necessidade de controle e orientação
extra-científicos. Os humanistas também precisam dos
cientistas naturais. A ciência e a tecnologia determinam o mundo
e o homem de hoje. Desconhecê-las implica uma incapacidade
medieval para interpretar a realidade e impossibilita fazer propostas
praticáveis para dar humanidade ao homem. O encontro mostrou
sinais de que a vontade de se aproximar está viva, apesar da
desconfiança mútua, e apesar da
especialização extrema, produto da luta feroz pela
sobrevivência nos ambientes acadêmicos. Alguns
palestrantes discutiram explicitamente as possibilidades desse
diálogo. Um filósofo propôs partir da
discussão do "elemento multifacetado da racionalidade
moderna", um psicólogo mencionou as
conseqüências da existência de
"territórios" ou "domínios"
científicos e intelectuais, um antropólogo enfatizou a
necessidade de estabelecer "regras de tradução entre
domínios" e de evitar a construção de
"portas corta fogo isolando as humanidades das ciências e
das artes", outro antropólogo falou que "é
importante que nossos colegas das ciências duras tentem
compreender, e ao mesmo tempo nos ajudem, que a ciência da
natureza é apenas uma das nossas referências". A
proposta mais clara e abrangente, a meu entender, foi feita por um
cientista político que terminou sua palestra breve, mas de forte
impacto, explicando que a sociologia da ciência (e eu estendo
às humanidades em geral) tem a função de
contribuir à "construção de uma
reflexão ampla sobre a questão da racionalidade no mundo
contemporâneo" e "a reflexão da racionalidade
sobre si próprio, ajudar, portanto, os próprios
cientistas a não serem tão ingênuos no uso da
racionalidade como mero instrumento". E agregou que para isso
"o profissional nessa área [deve ter]
condições para dialogar com seus colegas; isso é
uma exigência dura". Do lado das ciências naturais, o
tom das palestras sobre metodologia foi de aproximação e
convergência. E Bricmont e Sokal mostraram, apesar das
críticas a seus trabalhos, a consciência de que as
ciências humanas são algo valioso demais para permitir um
"vale tudo" e que é preciso encontrar mecanismos de
diálogo e julgamento mútuo. Mas nos momentos pessimistas vejo que esses sinais
são muito vagos, e penso naquelas palestras que mostraram como
intenções fundamentalmente sadias --- a
revalorização das "culturas tradicionais"
desdenhadas, como assinalou Snow, em certas pesquisas
científicas; o interesse em compreender, sem subestimar,
diversos pontos de vista---- podem conduzir a um
"multiculturalismo fora de controle" no qual a lógica
é "empobrecedora" e tudo aquilo que possa ser
apresentado sob várias óticas, embora
contraditórias, "enriquece". O risco é que
isso, que parece no começo só um jogo especulativo,
conduza a um pesquisador irremediavelmente desprovido de armas
desenvolvidas, com esforço e até sangue, nos
últimos séculos. Assim como a lógica é
marcante, a falta dela também é. O mesmo é
válido em relação ao método experimental.
É natural que aquelas carreiras ou disciplinas edificadas de
modo a evitar, relativizar ou negar a lógica e o método
científico baseado nela e na experimentação,
acabem por produzir indivíduos com pouca capacidade para seguir
e apresentar argumentos nesta forma, e até desacostumados ao
tipo de compreensão que eles proporcionam. Isso deixaria
setores valiosos das ciências humanas fora de qualquer
aproximação por falta de linguagem e mecanismos
intelectuais comuns. A assimetria já denunciada por Snow
tornar-se-ia ainda maior, e o fosso entre culturas ainda mais
profundo. Agradeço as sugestões e
explicações de M. Santoro (que não necessariamente
compartilha minhas opiniões), e a ajuda de K. Giambiaggi e C.
Plastino com o portugués. Referências
[1] C. P. Snow: As Duas Culturas e uma Segunda
Leitura, Editora da Universidade de São Paulo, 1995.
[2] A. D. Sokal e J. Bricmont:
Impostures Intellectuelles,
Éditions Odile Jacob, Paris, 1997;
2da. ed. Livre de Poche, Paris, 1999; no Brasil: Imposturas
Intelectuais, Editora Record, Rio de Janeiro, 1999.
[3] Por exemplo, a Folha de
São Paulo publicou artigos
sobre o "affaire Sokal"
nas datas 15 e 22 de setembro e 6 e 21 de outubro de 1996, e sobre o
livro Impostures Intellectuelles em 11 e 19 de abril, 9 de maio
e 13 de junho de 1998. Ver também o suplemento Cultura
do jornal Zero Hora do 30 de maio de 1998. Uma lista detalhada
de referências pode ser encontrada no site web de Alan
Sokal:
http://www.physics.nyu.edu/faculty/sokal/
[4] Bento Prado Jr.: Quinze minutos de notoriedade, Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 9 de maio de 1998; Bricmont e Sokal: Imposturas e fantasias, Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 13 de junho de 1998.